O Caminho da Graça: Escolhas que Glorificam a Deus

A vida cristã não é guiada pela mera preferência pessoal, mas pela obediência à vontade de Deus revelada em Sua Palavra e pelo caminhar na graça que Ele concede soberanamente. A doutrina reformada nos ensina que o Senhor é o autor e consumador da nossa fé (Hb 12:2), e que tudo em nossa vida, desde os dons que recebemos até as decisões que tomamos, deve glorificá-Lo. Todavia, muitos cristãos tropeçam ao tentarem trilhar caminhos que Deus não os chamou para seguir, negligenciando o princípio da vocação graciosa e o ensino das Escrituras.

A Graça que Concede Dons

O apóstolo Paulo escreve aos coríntios: “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4:7). Ou seja, Deus, por sua graça, concede dons distintos a cada membro do corpo de Cristo, com o propósito de edificação e serviço. Não escolhemos nossos dons — recebemo-los. Não determinamos nossas vocações — discernimos aquilo que Deus preparou de antemão para que andássemos (Ef 2:10).

Entretanto, o ser humano, mesmo redimido, ainda lida com as inclinações do coração, que pode tender à vaidade, orgulho ou simplesmente à ignorância espiritual. Quando alguém ignora a vocação graciosa de Deus e insiste em trilhar um caminho contrário ao dom que lhe foi dado, pode até alcançar algum sucesso aos olhos do mundo, mas fracassa naquilo que é mais importante: glorificar a Deus.

O Erro de Escolhas Carnais

Tome-se como exemplo um jovem crente que, agraciado por Deus com uma mente lógica e apta para os números, demonstra facilidade para aprender e ensinar matemática. Contudo, por influência cultural ou desejo pessoal, escolhe seguir o caminho da língua portuguesa, para o qual não demonstra aptidão ou paixão genuína. Ele se torna um professor medíocre, frustrado, e transmite essa frustração aos alunos. Assim, não apenas deixa de glorificar a Deus como deveria, como também dá um testemunho fraco diante dos homens. Embora Deus possa usar qualquer situação para os Seus propósitos, o fato é que esse crente decidiu andar fora do caminho da graça que lhe havia sido concedida.

Outro exemplo relevante se encontra nas palavras de Jesus a respeito do casamento. Em Mateus 19:11-12, ao falar sobre a seriedade do matrimônio, Ele afirma: “Nem todos são aptos para aceitar este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado.” Jesus reconhece que o casamento não é um chamado universal, mas uma vocação para a qual Deus concede graça específica. Alguns são chamados ao celibato para se dedicarem de forma mais plena ao Reino, outros são chamados ao casamento como expressão de aliança e serviço mútuo. Quando alguém se casa apenas por pressão social ou desejo humano, sem ter recebido graça e vocação para tal, corre o risco de viver de modo desordenado e dar mal testemunho — ainda que o casamento em si seja uma bênção. A escolha, portanto, deve ser conduzida pela Palavra e confirmada pela graça.

Escolhas que Glorificam

As Escrituras são claras ao nos orientar sobre como devemos tomar decisões: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas” (Pv 3:5-6). O caminho da graça, portanto, não é subjetivo nem místico, mas orientado pela Palavra e iluminado pelo Espírito.

Isso significa que nossas escolhas — vocacionais, ministeriais, relacionais ou cotidianas — devem estar de acordo com a vontade revelada de Deus e sensíveis à direção da graça. Precisamos orar com reverência, buscar conselho dos irmãos maduros, e, sobretudo, examinar nossos caminhos à luz das Escrituras. Quando andamos em submissão à Palavra e dependência da graça, glorificamos a Deus e frutificamos abundantemente.

Conclusão

A doutrina reformada nos lembra que Deus é soberano sobre todas as coisas, inclusive sobre os dons que nos concede. Somos chamados a viver de acordo com essa graça, não para nossa própria exaltação, mas para que Cristo seja exaltado em nós. Quando tentamos viver fora daquilo que Deus nos chamou para fazer, corremos o risco de dar mal testemunho, desperdiçar recursos e, mais grave, desonrar Aquele que nos chamou. O verdadeiro caminho da graça é aquele que passa pela obediência, discernimento e glorificação de Deus em todas as nossas escolhas.

“Portanto, quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.”
(1 Coríntios 10:31)