As 10 Teses de Berna: a autoridade da Escritura diante das práticas que permanecem na Igreja Católica

As Dez Teses de Berna, apresentadas em 1528 no contexto da Reforma Suíça, continuam sendo um documento de grande importância para compreender o confronto entre a autoridade da Sagrada Escritura e doutrinas e práticas religiosas que não encontram fundamento suficiente no ensino bíblico. Elaboradas por Berthold Haller e Francisco Kolb e revisadas por Ulrico Zuínglio, as teses foram apresentadas em Berna como uma defesa pública do Evangelho fundamentada nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento.

A questão levantada por Berna não pertence simplesmente ao século XVI. O ponto fundamental continua atual: o que deve governar a fé e o culto cristão — a Palavra de Deus ou tradições e ensinamentos humanos que ultrapassam aquilo que a Escritura ensina?

As Teses de Berna devem, portanto, ser lidas à luz da própria Bíblia. A crítica não depende da preferência de um grupo teológico. O argumento dos reformadores era que Cristo e os apóstolos devem ser obedecidos acima de qualquer autoridade humana e que toda doutrina religiosa precisa ser examinada pela Palavra de Deus.

É nesse sentido que as dez teses continuam oferecendo um instrumento para avaliar práticas que permanecem oficialmente presentes na Igreja Católica Romana.

1. A Igreja pertence a Cristo e deve permanecer debaixo da Palavra de Deus

A primeira tese afirma que a verdadeira Igreja tem Cristo como seu único Cabeça, nasce da Palavra de Deus e permanece nela. Essa afirmação está diretamente relacionada ao ensino bíblico de que Cristo é o Cabeça da Igreja (Ef 1:22–23; 5:23) e de que a Igreja deve ouvir a voz do seu Senhor.

O princípio é decisivo: a Igreja não possui autoridade para criar uma nova fonte de revelação capaz de colocar-se acima da Escritura. Jesus repreendeu tradições religiosas quando estas anulavam a Palavra de Deus: “Deixando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens” (Mc 7:8).

A própria Igreja Católica afirma atualmente que recebe da Igreja a Palavra de Deus, a tradição e o ensinamento do Magistério como elementos relacionados à transmissão da fé. A questão bíblica levantada pela primeira tese permanece, portanto, fundamental: toda tradição deve ser examinada e submetida à Palavra de Deus, e não a Palavra de Deus submetida à tradição.

2. Nenhuma tradição humana pode obrigar a consciência quando contradiz a Palavra de Deus

A segunda tese declara que a Igreja de Cristo não pode estabelecer mandamentos sem fundamento na Palavra de Deus. Por isso, tradições humanas não possuem autoridade vinculante simplesmente porque foram estabelecidas ou transmitidas pela instituição religiosa.

Esse princípio encontra fundamento claro nas palavras de Cristo. Em Mateus 15:3, Jesus pergunta: “Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição?”

A questão não é simplesmente possuir tradições. A Bíblia conhece tradições apostólicas verdadeiras (2Ts 2:15). O problema ocorre quando uma tradição religiosa recebe autoridade que pertence exclusivamente à Palavra de Deus ou quando uma tradição contradiz aquilo que Deus revelou.

É justamente nesse ponto que a segunda tese continua relevante. O cristão deve perguntar diante de cada doutrina: onde está escrito? Qual é o fundamento bíblico? A prática foi ordenada por Cristo e pelos apóstolos, ou foi posteriormente estabelecida pela instituição religiosa?

A Escritura permanece como norma pela qual todas as tradições devem ser julgadas.

3. Cristo é o único fundamento da salvação e da satisfação pelo pecado

A terceira tese coloca Cristo no centro absoluto da salvação: Ele é a sabedoria, justiça, redenção e satisfação pelos pecados.

Essa não é uma simples formulação teológica dos reformadores. É o testemunho das Escrituras. “E não há salvação em nenhum outro” (At 4:12). “Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2:5).

A Bíblia apresenta a obra de Cristo como suficiente e perfeita. Hebreus 10:12 declara que Cristo, “havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, assentou-se para sempre à direita de Deus”. Poucos versículos depois, Hebreus acrescenta: “Com uma única oferta aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hb 10:14).

Assim, qualquer sistema religioso que introduza outra satisfação, outro fundamento ou outro meio necessário para completar a obra expiatória de Cristo precisa ser confrontado com a suficiência da cruz.

A questão levantada por Berna continua sendo essencial: se Cristo realizou perfeitamente a redenção, o que ainda precisa ser acrescentado à sua obra para que o pecador seja reconciliado com Deus?

4. A presença corporal de Cristo na Eucaristia não pode ser estabelecida pela Escritura

A quarta tese questiona a afirmação de que o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estejam corporalmente presentes nos elementos da Eucaristia, afirmando que isso não pode ser demonstrado pelas Escrituras.

A questão precisa ser tratada diretamente a partir do texto bíblico. Cristo instituiu a Ceia como memorial de sua morte: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22:19; 1Co 11:24–26). Paulo chama o pão de “pão” e o cálice de “cálice” ao explicar a celebração aos coríntios.

A doutrina católica atual, porém, afirma a presença real de Cristo na Eucaristia e ensina que a celebração possui caráter sacrificial.

O ponto levantado por Berna permanece, portanto, bíblico: não basta afirmar que determinada interpretação é antiga ou tradicional. É necessário demonstrá-la a partir da Escritura.

5. O sacrifício de Cristo foi oferecido uma vez por todas

A quinta tese atinge o centro da controvérsia: a Missa, entendida como sacrifício oferecido em favor dos vivos e dos mortos, é confrontada com a suficiência do sacrifício realizado por Cristo na cruz.

A Escritura é extremamente clara quanto à singularidade e suficiência da morte de Cristo. Hebreus 9:28 afirma que Cristo foi oferecido “uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos”. Hebreus 10:10 declara que fomos santificados mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, “uma vez por todas”.

A doutrina católica atual continua ensinando o caráter sacrificial da Eucaristia. O Catecismo afirma que a Missa é o memorial sacrificial no qual o sacrifício da cruz é tornado presente e ensina que a Eucaristia é oferecida em reparação pelos pecados dos vivos e dos mortos.

Aqui está uma das questões mais profundas levantadas por Berna: se Cristo já ofereceu a si mesmo uma vez por todas, a Igreja possui autorização bíblica para apresentar a Eucaristia como sacrifício propiciatório?

A resposta precisa ser procurada na Escritura, especialmente em Hebreus 7–10, e não simplesmente na tradição posterior da Igreja.

6. Cristo é o único Mediador entre Deus e os homens

A sexta tese afirma que, porque somente Cristo morreu pelos pecadores, somente Ele deve ser reconhecido como Mediador e Advogado entre Deus Pai e os crentes. A tese rejeita a invocação de outros mediadores por considerá-la contrária à Palavra de Deus.

O fundamento bíblico é explícito:

“Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.”
1 Timóteo 2:5

A Bíblia também ensina que temos “Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2:1) e que Cristo vive para interceder pelos seus (Hb 7:25).

A Igreja Católica mantém oficialmente a prática de recorrer à intercessão dos santos e atribui à Virgem Maria títulos e funções de intercessão dentro da sua devoção.

A questão levantada pela sexta tese continua sendo inteiramente bíblica: se a Escritura apresenta Cristo como o único Mediador entre Deus e os homens, por que o pecador deveria dirigir suas súplicas a outros mediadores celestiais?

A intercessão cristã entre pessoas vivas não é o problema; a própria Bíblia ordena que os cristãos orem uns pelos outros. A questão é outra: atribuir aos santos falecidos uma função de intercessão religiosa que a Escritura atribui singularmente a Cristo.

7. O purgatório e as práticas em favor dos mortos não encontram fundamento no ensino apostólico

A sétima tese rejeita a doutrina do purgatório por não encontrar fundamento nas Escrituras e, consequentemente, questiona práticas religiosas realizadas em favor dos mortos.

A Bíblia apresenta o destino eterno como determinado pela relação do homem com Cristo e não ensina uma terceira condição de purificação após a morte. Hebreus 9:27 declara: “aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo”.

A doutrina católica atual, contudo, continua ensinando oficialmente o purgatório. O Catecismo afirma que aqueles que morrem na graça de Deus, mas ainda não estão plenamente purificados, passam por uma purificação depois da morte. Também afirma a prática de orações, sacrifícios e indulgências em favor dos mortos.

O contraste com a mensagem do Evangelho é especialmente importante quando consideramos a obra de Cristo. A Escritura ensina que “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1:7) e que “agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1).

A pergunta de Berna permanece: onde a Escritura ordena que a Igreja realize missas, indulgências ou outras obras para auxiliar as almas dos mortos em um processo de purificação pós-morte?

8. A veneração religiosa de imagens deve ser confrontada com os mandamentos de Deus

A oitava tese trata das imagens e afirma que sua utilização para culto é contrária à Palavra de Deus quando conduz à veneração.

O fundamento bíblico começa no segundo mandamento: “Não farás para ti imagem de escultura” (Êx 20:4). O problema não é apenas a existência material de qualquer representação artística, mas sua utilização no contexto do culto e da devoção religiosa.

A Escritura também condena a fabricação de imagens para serem adoradas e denuncia a tentativa humana de representar Deus por meio de objetos (Dt 4:15–19; Is 42:8; At 17:29).

A Igreja Católica atualmente possui doutrina oficial sobre imagens sagradas. O Catecismo ensina a presença de imagens de Cristo, Maria, anjos e santos nos templos e afirma a prática de veneração relacionada às pessoas representadas.

Assim, a questão não desapareceu com a Reforma. Ela continua exigindo uma resposta bíblica: a prática de ajoelhar-se, venerar, beijar ou dirigir devoções diante de imagens encontra autorização clara no padrão de culto estabelecido pela Escritura?

As Teses de Berna insistem que a resposta deve vir da Palavra de Deus.

9. O casamento não pode ser proibido por uma autoridade religiosa quando Deus o estabeleceu

A nona tese trata do casamento e afirma que a Escritura não proíbe o matrimônio a nenhum estado ou ordem de pessoas.

Esse princípio também possui fundamento apostólico. Paulo ensina que o casamento é honroso (Hb 13:4) e, ao tratar dos ministros da Igreja, apresenta o casamento sem estabelecer uma proibição universal para aqueles que exercem liderança (1Tm 3:2; Tt 1:6).

Mais adiante, a própria Escritura alerta contra aqueles que “proíbem o casamento” (1Tm 4:1–3).

A tese, portanto, não é uma defesa do pecado ou da libertinagem. Pelo contrário: ela reconhece o casamento como instituição estabelecida por Deus e apresentada pelas Escrituras como legítima e honrosa.

Berna recordava à Igreja que nenhuma autoridade religiosa possui liberdade para transformar em pecado aquilo que Deus não proibiu.

10. A imoralidade sexual deve ser julgada pela Palavra de Deus, especialmente entre aqueles que exercem ministério

A décima tese encerra o conjunto tratando da disciplina da imoralidade sexual, particularmente grave quando praticada por aqueles que ocupam posições religiosas.

Aqui não existe qualquer relativização moral. A Bíblia condena claramente a imoralidade sexual. “A vontade de Deus é a vossa santificação: que vos abstenhais da imoralidade sexual” (1Ts 4:3).

A Igreja deve exercer disciplina sobre aqueles que vivem deliberadamente em pecado e, de maneira ainda mais séria, sobre aqueles que carregam responsabilidade espiritual sobre o povo de Deus. Paulo ordena disciplina contra o pecado grave e escandaloso na igreja (1Co 5).

A décima tese demonstra que a Reforma não estava preocupada apenas com doutrina abstrata. A verdadeira reforma da Igreja também envolve santidade, disciplina e fidelidade à Palavra.

A mesma Escritura que condena falsos ensinos condena também uma vida que contradiz o Evangelho.

As Dez Teses de Berna permanecem, assim, como um chamado para que toda prática religiosa seja examinada diante da Palavra de Deus. Elas não devem ser transformadas em uma mera peça histórica do século XVI. Sua força está justamente no princípio que as sustenta: a Igreja deve ouvir a voz de Cristo revelada nas Escrituras.

Quando uma doutrina é confrontada com a Bíblia, não importa quão antiga seja a tradição, quão difundida seja a prática ou quão elevada seja a autoridade humana que a sustenta. “A tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

O problema fundamental não é simplesmente aquilo que aconteceu em Berna em 1528. O problema continua sendo o mesmo: o que Deus realmente ordenou em sua Palavra?

As Teses de Berna continuam relevantes porque apontam para essa pergunta. E, enquanto permanecerem práticas religiosas que não podem ser fundamentadas na Escritura — ou que entram em conflito com aquilo que a Escritura claramente ensina — a necessidade de examiná-las pela Palavra de Deus permanece.

A Reforma, nesse sentido, não deve ser lembrada apenas como um acontecimento histórico. Seu princípio continua sendo uma advertência à Igreja: Ecclesia reformata, semper reformanda secundum Verbum Dei — a Igreja reformada deve estar continuamente sendo reformada segundo a Palavra de Deus.

Não é a tradição que deve julgar a Escritura. É a Escritura que deve julgar toda tradição.