A Vocação Particular: Deus, Trabalho e Fidelidade na Vida Cristã segundo os Puritanos

A doutrina cristã da vocação possui uma importância muito maior do que simplesmente descobrir uma profissão ou escolher uma carreira. Na tradição puritana, a vocação está relacionada à maneira como o cristão compreende seu lugar diante de Deus, da família, da igreja e da sociedade.

Entre os autores que desenvolveram essa compreensão estão William Perkins, Richard Steele e Cotton Mather. Suas obras, embora escritas em contextos históricos diferentes, apresentam uma concepção profundamente relacionada: Deus não chama o cristão apenas para crer, mas também para viver fielmente no lugar e nas responsabilidades que lhe foram confiados.

William Perkins desenvolveu essa doutrina em A Treatise of the Vocations, or Callings of Men, publicado em 1603. A obra trata da natureza das vocações, de suas diferentes espécies e do uso correto delas. Perkins define a vocação como uma determinada condição ou maneira de viver ordenada por Deus para o bem comum.

Richard Steele, em The Tradesman’s Calling, de 1684, aplica essa perspectiva especialmente ao mundo do comércio. Sua obra aborda a natureza e a necessidade de uma vocação, a escolha e entrada nela e, posteriormente, o modo correto de administrá-la, incluindo prudência, diligência, justiça, verdade, contentamento e religiosidade.

Já Cotton Mather, em A Christian at His Calling, publicado em 1701, apresenta a relação entre a vocação geral do cristão e sua vocação pessoal ou particular. Para Mather, o cristão deveria possuir uma ocupação definida na qual pudesse glorificar a Deus, fazer o bem aos outros e obter honestamente seu sustento.

A partir desses três autores, podemos compreender a vocação particular como uma dimensão concreta da vida cristã: Deus chama o cristão a servir ao próximo e glorificá-lo por meio de responsabilidades específicas exercidas com fidelidade.


1. Vocação geral e vocação particular

Antes de compreender a vocação particular, é necessário estabelecer uma distinção fundamental.

A vocação geral é o chamado que pertence a todos os cristãos. É o chamado para seguir a Cristo, viver em santidade, obedecer à Palavra de Deus, amar a Deus e ao próximo e buscar a glória de Deus em toda a existência.

A vocação particular, por sua vez, diz respeito à posição concreta que uma pessoa ocupa na vida e às responsabilidades específicas que lhe foram confiadas.

Assim, um cristão possui uma única vocação geral, mas pode exercer diferentes responsabilidades particulares ao longo da vida.

Cotton Mather estrutura seu tratado precisamente nessa direção: sua obra contém um discurso sobre a vocação geral e outro sobre a vocação pessoal. Para ele, o cristão não deveria tratar essas duas dimensões como concorrentes, mas como partes inseparáveis de uma mesma vida diante de Deus.

O cristão serve a Cristo em sua vocação geral e serve ao próximo por meio de sua vocação particular.

Não se trata, portanto, de escolher entre “servir a Deus” e “trabalhar”. O trabalho pode ser um dos meios pelos quais o cristão serve a Deus.


2. O autor da vocação é Deus

Um dos fundamentos mais importantes da teologia de William Perkins é que Deus é o autor das vocações.

Perkins argumenta que a vocação não é simplesmente uma invenção humana ou uma atividade escolhida de maneira independente de Deus. Ela está relacionada à providência divina pela qual Deus ordena as pessoas em diferentes posições e responsabilidades dentro da sociedade.

Ele utiliza a imagem de um exército: assim como um general coloca cada soldado em determinado posto, Deus distribui diferentes posições e funções entre os homens. Cada pessoa possui responsabilidades próprias dentro da ordem providencial estabelecida por Deus.

Isso não significa que cada profissão específica tenha sido revelada diretamente por Deus a cada indivíduo. A ideia é mais ampla: Deus governa providencialmente a vida humana e utiliza dons, oportunidades, necessidades sociais, autoridades legítimas e circunstâncias para colocar as pessoas em diferentes formas de serviço.

Por isso, a pergunta cristã não deve ser simplesmente:

“O que eu quero fazer da minha vida?”

Mas também:

“Como posso servir a Deus e ao próximo fielmente dentro das responsabilidades que Deus colocou diante de mim?”

Essa mudança de perspectiva é fundamental.


3. A vocação particular existe para o bem comum

Perkins define a vocação como uma maneira de viver ordenada por Deus para o bem comum.

Esse aspecto é extremamente importante.

A vocação não existe exclusivamente para benefício pessoal.

O trabalho de um médico beneficia pacientes. O professor beneficia alunos. O agricultor produz alimentos. O comerciante disponibiliza bens. O administrador organiza recursos. O servidor público exerce responsabilidades relacionadas ao funcionamento da sociedade. O artesão produz algo útil. O pai e a mãe cuidam e educam os filhos.

Mesmo quando existe remuneração, a vocação possui uma dimensão social.

O indivíduo oferece algum tipo de serviço ou benefício à comunidade e, por meio disso, recebe legitimamente os meios necessários para sua própria manutenção.

Cotton Mather desenvolve uma ideia semelhante ao afirmar que Deus criou o ser humano como criatura sociável. Se esperamos benefícios da sociedade humana, é justo que também sejamos úteis a ela por meio da ocupação especial que exercemos.

Portanto, a vocação particular possui uma estrutura de reciprocidade:

Deus → vocação → serviço ao próximo → sustento legítimo → glória de Deus.


4. Todo cristão deve possuir uma ocupação útil

Para esses autores, a existência de uma vocação particular não deveria ser considerada algo reservado às pessoas de determinada classe social.

Perkins insiste que ricos e pobres, homens e mulheres, estão sujeitos ao princípio de exercer uma vocação pessoal e cumprir deveres para o bem comum segundo os dons que receberam.

Mather afirma de maneira semelhante que o cristão normalmente deve possuir uma ocupação definida, um negócio ou atividade estabelecida na qual empregue boa parte de seu tempo. O objetivo é glorificar a Deus, fazer o bem aos outros e obter o próprio sustento.

Isso também estabelece uma crítica à ociosidade.

Para essa tradição, o problema da ociosidade não consiste simplesmente em “não trabalhar para ganhar dinheiro”. O problema é desperdiçar os dons, o tempo e as oportunidades que Deus concedeu sem produzir qualquer benefício legítimo.

A pergunta passa a ser:

“De que maneira minha existência está sendo útil?”


5. Vocação não significa apenas profissão

É importante evitar uma redução moderna da vocação ao conceito de emprego.

Na concepção puritana, uma vocação particular pode envolver diversas responsabilidades.

Um homem pode exercer uma profissão e, simultaneamente, possuir responsabilidades como marido, pai, membro de uma igreja, cidadão e membro de uma comunidade.

A profissão é uma dimensão importante da vocação, mas não esgota toda a responsabilidade pessoal.

Perkins trabalha com uma compreensão ampla das posições sociais: rei, súdito, ministro, chefe de família e outros ocupam diferentes condições de vida e responsabilidades.

Consequentemente, “vocação particular” não deve ser entendida simplesmente como sinônimo de “profissão”.

A profissão pode ser o principal instrumento econômico da vocação particular, mas as responsabilidades familiares e sociais também fazem parte da estrutura da vida vocacional.


6. A escolha da vocação

Uma questão importante em Perkins e Steele é a escolha da vocação.

Steele dedica um capítulo específico à escolha de uma vocação e outro à entrada correta nela. Sua obra não trata o trabalho simplesmente como uma necessidade econômica, mas como uma responsabilidade que deve ser escolhida e administrada com sabedoria.

Isso significa que o cristão não deveria escolher indiscriminadamente qualquer atividade apenas porque ela promete dinheiro, status ou prazer.

A escolha deveria considerar elementos como:

  • dons e capacidades;
  • aptidões;
  • oportunidades legítimas;
  • utilidade social;
  • possibilidade de sustento;
  • compatibilidade com os princípios cristãos;
  • responsabilidades familiares;
  • honestidade da atividade;
  • capacidade de exercer o trabalho com fidelidade.

A vocação, portanto, envolve discernimento.


7. Nem toda atividade é uma vocação legítima

O princípio de vocação não significa que qualquer ocupação possa ser automaticamente legitimada como “chamado de Deus”.

Uma atividade que exige pecado não pode ser transformada em vocação simplesmente porque alguém depende financeiramente dela.

O cristão não pode justificar mentira, fraude, exploração, injustiça ou qualquer outra prática pecaminosa dizendo:

“Esse é o meu trabalho.”

Steele dedica uma seção específica à justiça, outra à verdade e outra à religiosidade dentro do exercício do comércio.

A vocação deve estar subordinada à vontade revelada de Deus.

Primeiro vem a obrigação de obedecer a Deus; depois, dentro dos limites dessa obediência, o cristão exerce sua atividade particular.


8. A entrada correta na vocação

A vocação não deve ser apenas escolhida; ela deve ser assumida corretamente.

Steele trata especificamente da entrada em uma vocação.

Isso envolve preparação, conhecimento, prudência e disposição para assumir as responsabilidades correspondentes.

O indivíduo não deveria entrar em determinada atividade simplesmente movido pela aparência de riqueza ou pela inveja do sucesso alheio.

A preparação também faz parte da fidelidade.

Se Deus concede a alguém uma determinada responsabilidade, isso não elimina a necessidade de aprender, estudar, adquirir experiência e desenvolver competência.

A espiritualidade cristã não é uma desculpa para incompetência.

Pelo contrário: se a atividade é realizada diante de Deus, ela deve ser realizada com seriedade.


9. O cristão deve procurar excelência em sua vocação

O princípio da vocação particular produz uma visão elevada do trabalho.

O trabalho cotidiano não é necessariamente uma atividade inferior em comparação com atividades religiosas.

Um cristão pode glorificar a Deus ao administrar uma empresa, ensinar uma criança, reparar um equipamento, escrever um documento, cuidar de uma casa, vender uma mercadoria, prestar um serviço ou exercer uma função pública.

O valor espiritual não está simplesmente no título da atividade, mas na fidelidade com que ela é realizada diante de Deus.

Por isso, a vocação exige competência.

Steele enfatiza especialmente a prudência e a diligência na administração do comércio.

O cristão deveria procurar fazer bem aquilo que recebeu para fazer.


10. Diligência: trabalhar enquanto Deus concede oportunidade

A diligência ocupa lugar central nessa tradição.

O tempo não deveria ser desperdiçado.

Mather condena a negligência e a dissipação da vida em atividades improdutivas, ressaltando a necessidade de ocupar-se seriamente na própria vocação.

Entretanto, diligência não significa escravidão ao trabalho.

O puritano não deveria transformar o trabalho em seu deus.

A vocação existe dentro de uma ordem maior: Deus, família, igreja, sociedade e descanso possuem seus lugares próprios.

A diligência cristã significa utilizar fielmente o tempo e os dons recebidos, não transformar a produtividade em um ídolo.


11. Prudência na vocação

Steele dedica atenção especial à prudência.

O cristão precisa pensar antes de agir.

Isso envolve administrar recursos, avaliar riscos, tomar decisões responsáveis e compreender as consequências das próprias escolhas.

No comércio, por exemplo, não basta ser trabalhador. É necessário administrar corretamente.

A espiritualidade não elimina a necessidade de sabedoria prática.

Um comerciante pode orar sinceramente e, ainda assim, precisar aprender contabilidade, administração, negociação e planejamento.

A providência divina não substitui a responsabilidade humana.

Deus governa todas as coisas, mas o cristão continua obrigado a utilizar os meios ordinários que Deus colocou à sua disposição.


12. Justiça e honestidade

Uma das características mais marcantes da aplicação de Steele é a insistência na justiça e na verdade.

O cristão não pode separar sua fé de suas práticas profissionais.

Não existe uma moralidade para o domingo e outra para segunda-feira.

Se o cristão é chamado a viver diante de Deus, então Deus também está presente no contrato, na venda, no salário, na negociação, na prestação de serviço e na administração.

Isso significa rejeitar:

  • fraude;
  • mentira;
  • falsificação;
  • exploração;
  • manipulação;
  • desonestidade;
  • cobrança injusta;
  • abuso da confiança alheia.

A vocação é um lugar de santificação precisamente porque nela o coração é constantemente colocado diante de tentações reais.


13. O perigo da avareza

Perkins destaca a cobiça como um dos vícios que precisam ser evitados no exercício das vocações.

Isso é particularmente importante porque o trabalho pode começar como instrumento de serviço e terminar como objeto de adoração.

O dinheiro é legítimo como meio de sustento.

O problema surge quando o dinheiro passa a governar o coração.

Nesse ponto, a vocação deixa de ser exercida para a glória de Deus e passa a ser utilizada para a própria glória.

O comerciante pode deixar de perguntar:

“Como posso servir?”

e começar a perguntar apenas:

“Quanto posso ganhar?”

A tradição puritana procura justamente impedir essa transformação.

O dinheiro deve servir à vocação; a vocação não deve se tornar escrava do dinheiro.


14. Contentamento com a própria vocação

Um dos ensinamentos mais profundos de Perkins é que o cristão deve considerar sua própria vocação como a melhor para ele, não necessariamente como a melhor em termos absolutos.

Isso está relacionado ao contentamento de Filipenses 4.11.

A comparação constante destrói a fidelidade.

Se alguém passa o tempo desejando a profissão, posição, salário ou reconhecimento de outra pessoa, torna-se incapaz de trabalhar fielmente naquilo que recebeu.

Perkins observa que, quando as pessoas começam a desprezar sua própria posição e imaginar que a vocação dos outros seria melhor para elas, surge desordem.

Isso não significa que uma pessoa nunca possa mudar de emprego ou profissão.

Significa que a insatisfação permanente não é o fundamento correto para a vida vocacional.

O cristão pode buscar mudanças legítimas sem transformar a inveja em princípio de decisão.


15. Ambição e inveja como inimigas da vocação

Perkins identifica ambição, inveja e impaciência entre os obstáculos à constância na vocação.

Esses pecados possuem grande relevância para a vida profissional contemporânea.

A ambição faz o indivíduo desprezar sua posição atual porque deseja uma posição superior.

A inveja faz com que ele considere injustamente a vida dos outros superior à sua.

A impaciência faz com que abandone responsabilidades legítimas porque os resultados não aparecem imediatamente.

A resposta cristã é a fidelidade.

O cristão trabalha, aprende, cresce, busca oportunidades legítimas e pode avançar profissionalmente; mas não precisa destruir sua paz porque outra pessoa possui uma posição diferente.


16. A vocação como serviço ao próximo

A doutrina da vocação transforma o conceito de trabalho.

Em vez de enxergar a profissão apenas como uma maneira de obter renda, o cristão passa a perguntar:

“Quem é beneficiado pelo meu trabalho?”

O médico serve pacientes.

O professor serve estudantes.

O comerciante serve clientes.

O agricultor serve aqueles que precisam de alimento.

O técnico resolve problemas.

O administrador organiza recursos.

O servidor público atende necessidades da sociedade.

O trabalhador doméstico cuida da estrutura necessária para que outras pessoas possam viver e trabalhar.

Assim, diferentes vocações formam uma rede de interdependência.

Nenhuma pessoa é autossuficiente.

A sociedade depende de diferentes dons e serviços.


17. A vocação dentro da providência de Deus

A visão puritana da vocação está profundamente relacionada à providência.

Deus governa o mundo não apenas por acontecimentos extraordinários, mas também por meios ordinários.

Ele concede dons, oportunidades, limitações, relacionamentos, necessidades e circunstâncias.

Isso não significa que toda circunstância atual deva ser interpretada como uma determinação permanente de Deus.

Uma pessoa pode mudar de trabalho, desenvolver novas habilidades, receber uma promoção, mudar de profissão ou assumir uma nova responsabilidade.

A providência não elimina decisões; ela fornece o contexto no qual essas decisões são tomadas.

O cristão procura agir com sabedoria dentro desse contexto.


18. O trabalho não é o centro da identidade cristã

Apesar de atribuírem enorme importância à vocação, Perkins, Steele e Mather não transformam o trabalho na identidade última do cristão.

Essa distinção é essencial.

O cristão não é, em primeiro lugar, comerciante, professor, funcionário público, empresário, médico, técnico ou qualquer outra coisa.

Ele pertence a Cristo.

Sua vocação particular é uma esfera na qual sua fé é manifestada.

Isso protege o cristão de dois erros opostos.

O primeiro é desprezar o trabalho como algo secular e espiritualmente inferior.

O segundo é transformar o trabalho em um ídolo e medir o próprio valor exclusivamente por produtividade, salário, posição ou reconhecimento.

A vocação é importante, mas Cristo é maior que a vocação.


19. A vocação particular e a família

A vocação também precisa ser harmonizada com os deveres familiares.

Não seria coerente afirmar que alguém está servindo a Deus profissionalmente enquanto negligencia deliberadamente sua própria família.

A vocação deve ser ordenada.

Mather observa que a ocupação particular possui relação com a responsabilidade social e com uma vida ordenada.

Isso significa que o cristão deve perguntar não apenas:

“Como posso crescer profissionalmente?”

mas também:

“Minha maneira de exercer minha profissão é compatível com minhas demais responsabilidades diante de Deus?”

Uma promoção pode ser legítima.

Uma mudança de carreira pode ser legítima.

Um negócio pode ser legítimo.

Mas nenhuma dessas coisas transforma automaticamente as demais responsabilidades cristãs em algo secundário.


20. A vocação particular e o descanso

Diligência não significa atividade incessante.

Perkins inclui entre os aspectos da constância na vocação questões relacionadas a descanso, mudanças e impedimentos à perseverança.

Isso demonstra que a teologia puritana da vocação não deve ser confundida com uma espécie de culto moderno à produtividade.

O descanso possui lugar na ordem da vida.

O trabalhador precisa descansar para continuar trabalhando adequadamente.

A pessoa pode possuir períodos de férias e interrupções legítimas.

A própria vocação precisa ser administrada com sabedoria.

O objetivo não é simplesmente trabalhar o máximo possível, mas trabalhar fielmente.


21. A vocação particular como exercício dos dons

Deus concede diferentes capacidades às pessoas.

Nem todos possuem os mesmos dons, oportunidades ou responsabilidades.

Essa diversidade não deveria produzir desprezo.

Um corpo possui diferentes membros e funções.

Da mesma maneira, a sociedade necessita de diferentes vocações.

Perkins relaciona a responsabilidade particular à medida dos dons concedidos por Deus.

Isso significa que a vocação deve considerar aquilo que a pessoa é capaz de fazer de maneira útil.

A pergunta não é:

“Qual profissão possui maior prestígio?”

Mas:

“Onde meus dons podem ser empregados fielmente para a glória de Deus e o bem do próximo?”


22. O cristão não deve desprezar uma vocação humilde

Essa perspectiva também confronta a busca excessiva por status.

A sociedade pode considerar algumas ocupações mais importantes do que outras.

A perspectiva cristã introduz outro critério.

Uma atividade aparentemente simples pode possuir grande valor quando realizada honestamente e em benefício de outras pessoas.

Uma pessoa pode exercer uma função sem prestígio público e, ainda assim, viver uma vida extraordinariamente fiel diante de Deus.

O valor da vocação não é determinado exclusivamente pela visibilidade social.

Deus vê a fidelidade onde os homens muitas vezes não veem.


23. A vocação particular e a santidade

A vocação é também um campo de santificação.

É fácil imaginar santidade como algo restrito à oração, ao culto, à leitura bíblica ou às atividades diretamente religiosas.

A doutrina da vocação amplia essa compreensão.

O cristão precisa demonstrar santidade:

  • no modo como trabalha;
  • na maneira como trata colegas;
  • na forma como administra dinheiro;
  • na honestidade dos negócios;
  • na maneira como cumpre horários;
  • na qualidade do serviço;
  • no tratamento dos clientes;
  • na maneira como exerce autoridade;
  • na maneira como recebe ordens;
  • na forma como lida com sucesso e fracasso.

O local de trabalho torna-se, portanto, um dos lugares onde o caráter cristão é provado.


24. A vocação particular e o testemunho cristão

A vocação também possui dimensão testemunhal.

O cristão não precisa transformar cada ambiente profissional em um púlpito para demonstrar que pertence a Cristo.

Sua própria maneira de viver pode constituir testemunho.

Honestidade quando seria fácil trapacear.

Diligência quando ninguém está observando.

Humildade diante de uma posição de autoridade.

Justiça quando a injustiça seria lucrativa.

Contentamento quando a comparação produz insatisfação.

Generosidade quando o egoísmo parece mais vantajoso.

Essas atitudes demonstram que a fé alcança a totalidade da vida.


25. A vocação particular não elimina a providência sobre mudanças

Outro aspecto importante é compreender que uma vocação não precisa necessariamente permanecer idêntica durante toda a vida.

Perkins trata do encerramento da vocação e inclui questões relacionadas à renúncia e à mudança.

Isso é importante porque a vocação não deve ser transformada em uma prisão.

Uma pessoa pode concluir uma atividade e iniciar outra.

Pode mudar de função.

Pode aposentar-se.

Pode receber novas responsabilidades.

Pode abandonar uma atividade que se tornou incompatível com suas responsabilidades ou princípios.

O princípio fundamental não é:

“Nunca mude.”

É:

“Seja fiel a Deus naquilo que Ele colocou diante de você.”


26. A prestação de contas diante de Cristo

Aqui chegamos a um dos aspectos mais solenes da doutrina da vocação.

Para Perkins, a vocação possui um começo, um exercício e também um fim. O cristão deverá prestar contas diante de Deus da maneira como viveu e exerceu suas responsabilidades.

Isso significa que a pergunta final não será simplesmente:

“Quanto você ganhou?”

Nem:

“Qual cargo você ocupou?”

Nem:

“Quantas pessoas conheceram seu nome?”

A questão fundamental será a fidelidade.

O que Deus colocou em nossas mãos?

Como utilizamos os dons recebidos?

Como tratamos as pessoas?

Fomos honestos?

Fomos diligentes?

Servimos ao próximo?

Administramos corretamente aquilo que nos foi confiado?

Vivemos para nós mesmos ou para a glória de Deus?


27. O conceito de “boa conta” em Cotton Mather

Cotton Mather utiliza justamente a linguagem de uma boa prestação de contas.

Seu objetivo é ensinar como o cristão deve viver de maneira que possa dar uma boa conta de sua ocupação.

Essa linguagem transforma a vocação em uma espécie de administração.

O cristão é um mordomo.

Ele recebeu tempo.

Recebeu dons.

Recebeu oportunidades.

Recebeu recursos.

Recebeu responsabilidades.

E deverá responder diante de Deus pelo modo como administrou essas coisas.

Essa perspectiva impede que o trabalho seja visto simplesmente como propriedade absoluta do indivíduo.

Tudo aquilo que possuímos está debaixo da providência divina.


28. “Trabalhar para Deus” não significa trabalhar somente na igreja

Uma das consequências mais importantes dessa doutrina é a rejeição da divisão simplista entre atividades “espirituais” e “seculares”.

O pastor exerce uma vocação.

O comerciante exerce uma vocação.

O professor exerce uma vocação.

O artesão exerce uma vocação.

O agricultor exerce uma vocação.

O funcionário exerce uma vocação.

O pai e a mãe possuem responsabilidades vocacionais.

A diferença está na natureza das funções, não na possibilidade de glorificar a Deus.

A teologia puritana recupera, assim, uma compreensão abrangente da vida cristã: toda a vida deve ser vivida coram Deo — diante da face de Deus.


29. A vocação particular e a liberdade cristã

É necessário, entretanto, evitar transformar essa doutrina em uma fórmula rígida.

A Bíblia não apresenta para cada cristão moderno uma profissão específica previamente revelada.

A vocação particular deve ser discernida por meios ordinários.

Isso envolve oração, Escritura, sabedoria, dons, circunstâncias, conselhos, responsabilidades e oportunidades legítimas.

Não é necessário esperar uma experiência extraordinária para começar a trabalhar.

A pessoa pode exercer uma atividade honestamente útil e, ao mesmo tempo, continuar buscando maior clareza sobre seu futuro.

A providência de Deus não exige que o cristão conheça antecipadamente todo o caminho.

Ele precisa ser fiel ao próximo passo.


30. O equilíbrio entre contentamento e crescimento

A doutrina da vocação não ensina passividade.

O contentamento cristão não significa acomodação.

O cristão pode buscar aperfeiçoamento, educação, promoção, melhores condições de trabalho e novas oportunidades.

A questão é o coração com que essas coisas são buscadas.

É possível desejar crescimento sem desprezar a posição atual.

É possível procurar uma oportunidade melhor sem invejar outra pessoa.

É possível desejar maior remuneração sem transformar riqueza em finalidade última.

É possível mudar de profissão sem considerar a profissão anterior um fracasso.

Contentamento e diligência não são opostos.

O cristão pode estar contente com a providência de Deus hoje e, simultaneamente, trabalhar diligentemente para amanhã.


31. A contribuição específica de cada autor

Embora Perkins, Steele e Mather compartilhem uma estrutura semelhante, cada um enfatiza aspectos particulares.

William Perkins: a estrutura teológica da vocação

Perkins fornece uma das formulações fundamentais.

Ele define a vocação, apresenta sua origem divina, distingue suas formas e estabelece princípios para sua escolha, entrada, exercício e término. Sua preocupação central é mostrar como a vocação se encaixa na ordem providencial de Deus e no bem comum.

Richard Steele: a ética da vocação

Steele desenvolve particularmente a aplicação da doutrina ao comércio.

Sua obra apresenta uma espécie de ética cristã do trabalho: prudência, diligência, justiça, verdade, contentamento e religiosidade devem acompanhar o exercício profissional.

Ele demonstra que a fé cristã precisa governar também as transações econômicas.

Cotton Mather: a integração entre vida cristã e ocupação

Mather enfatiza a relação entre a vocação geral e a vocação pessoal.

O cristão deve servir a Cristo e, simultaneamente, ser útil à sociedade mediante uma ocupação particular. Sua preocupação é mostrar que o exercício fiel da ocupação faz parte da responsabilidade cristã integral.


32. Uma síntese puritana da vocação particular

A partir desses três autores, podemos resumir a doutrina da vocação particular em algumas afirmações.

Primeiro: Deus é o autor e soberano da vocação.

Segundo: toda vocação legítima deve estar subordinada à Palavra de Deus.

Terceiro: o cristão possui uma vocação geral em Cristo e responsabilidades particulares na vida.

Quarto: a vocação particular existe para o serviço e o bem comum.

Quinto: os dons concedidos por Deus devem ser empregados de maneira útil.

Sexto: a escolha da vocação exige sabedoria e prudência.

Sétimo: a entrada em uma vocação deve ser responsável.

Oitavo: o exercício da vocação deve ser marcado por diligência, justiça e verdade.

Nono: o cristão deve evitar cobiça, inveja, ambição desordenada e impaciência.

Décimo: o cristão deve aprender contentamento com a posição que Deus lhe concede.

Décimo primeiro: o trabalho não deve tornar-se um ídolo.

Décimo segundo: a vocação pode mudar conforme a providência de Deus e as circunstâncias legítimas da vida.

Décimo terceiro: toda vocação deve ser exercida para a glória de Deus.

Décimo quarto: o cristão deverá prestar contas a Deus pela maneira como utilizou seus dons, tempo e oportunidades.


33. Vocação particular e a vida cristã contemporânea

Embora Perkins tenha escrito no início do século XVII, Steele no final do século XVII e Mather no início do século XVIII, os princípios centrais de sua doutrina continuam oferecendo uma estrutura útil para pensar cristãmente sobre o trabalho.

A pergunta não precisa ser simplesmente:

“Qual profissão Deus quer que eu tenha?”

Uma pergunta mais ampla e mais coerente com essa tradição seria:

“Como devo viver diante de Deus na posição que Ele providencialmente colocou diante de mim?”

Isso muda a maneira de enxergar a profissão.

O trabalho deixa de ser apenas fonte de renda.

Torna-se oportunidade de serviço.

O salário deixa de ser o único indicador de sucesso.

A fidelidade passa a ser fundamental.

O reconhecimento público deixa de ser o principal objetivo.

A aprovação de Deus torna-se mais importante.

E a carreira deixa de ser o centro da identidade.

Cristo continua sendo o centro.


Conclusão

A doutrina puritana da vocação particular apresenta uma visão profundamente abrangente da vida cristã.

Para William Perkins, a vocação é uma maneira de viver ordenada por Deus para o bem comum. Para Richard Steele, ela deve ser escolhida e administrada com prudência, diligência, justiça, verdade, contentamento e religiosidade. Para Cotton Mather, ela constitui parte indispensável da vida cristã, na qual o homem deve procurar glorificar a Deus, ser útil aos outros e dar uma boa conta de sua ocupação.

A vocação particular, portanto, não deve ser entendida simplesmente como “o emprego que Deus me deu”.

Ela é mais profunda.

É o lugar concreto no qual os dons, responsabilidades, oportunidades e deveres do cristão se encontram sob a providência de Deus.

O cristão trabalha porque Deus o chama a servir.

Serve porque Deus o fez membro de uma sociedade.

Utiliza seus dons porque Deus os concedeu.

Busca sustento porque Deus ordenou meios legítimos para sua manutenção.

Age com justiça porque pertence a Cristo.

E persevera porque sua fidelidade não depende exclusivamente dos resultados visíveis.

A grande questão da vocação não é simplesmente qual posição ocupamos, mas como ocupamos essa posição diante de Deus.

A vocação particular encontra seu verdadeiro significado quando o cristão pode olhar para aquilo que recebeu e dizer:

“Senhor, aquilo que colocaste em minhas mãos, procurei administrar para a tua glória e para o bem daqueles a quem me chamaste a servir.”

Essa é, em essência, a visão puritana da vocação: não trabalhar simplesmente para viver, mas viver diante de Deus enquanto trabalhamos, servimos e cumprimos fielmente aquilo que nos foi confiado.

Fontes

  • William Perkins, A Treatise of the Vocations, or Callings of Men, with the Sorts and Kinds of Them, and the Right Use Thereof (1603). A edição original foi publicada em Londres por John Legat em 1603.
  • Richard Steele, The Trades-Man’s Calling: Being a Discourse Concerning the Nature, Necessity, Choice, &c. of a Calling in General; and Directions for the Right Managing of the Tradesman’s Calling in Particular (1684).
  • Cotton Mather, A Christian at His Calling: Two Brief Discourses. One Directing a Christian in His General Calling; Another Directing Him in His Personal Calling (1701).