Em nossa cultura, é comum ouvir frases como “eu sempre fui assim”, “nasci desse jeito e não vou mudar” ou “esse é o meu jeito e pronto”. Muitos que professam ser cristãos utilizam essas expressões para justificar atitudes pecaminosas como grosseria, impaciência, orgulho, explosões de ira, vícios e descaso com a santidade. Contudo, à luz da doutrina bíblica, tais expressões não são meros ditos populares, mas sintomas de um coração que resiste ao arrependimento e à transformação operada pelo Espírito Santo.
“Porque os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.” (Gálatas 5:24)
Dentro das igrejas, é assustadoramente comum encontrar um sincretismo perigoso: uma fé professa em Cristo coexistindo pacificamente com pecados de estimação. São indivíduos que afirmam a salvação, mas se recusam a mudar hábitos pecaminosos, protegendo-os com um arsenal de ditados populares:
- “Eu sempre fui assim, tenho o pavio curto.”
- “Eu nasci assim, sou fofoqueiro(a) mesmo, e não vou mudar.”
- “Deus me conhece. Esse é o meu jeito e pronto.”
À luz das Sagradas Escrituras, essas frases não são apenas desculpas fracas; elas são, na verdade, uma negação frontal da própria essência do Evangelho, da obra de Cristo e do poder do Espírito Santo. Elas revelam uma profunda incompreensão sobre o que significa “nascer de novo”.
1. A Verdade Distorcida no Ditado: Depravação Total
Quando alguém diz: “Eu nasci assim”, o Calvinista, paradoxalmente, concorda. Esta é, de fato, uma confissão pública da doutrina da Depravação Total.
A teologia Reformada ensina que, desde a Queda de Adão, todo ser humano nasce espiritualmente morto (Efésios 2:1) e totalmente escravizado pelo pecado (Romanos 6:17). Nós não apenas pecamos; nós somos, por natureza, pecadores. Nosso coração é “enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jeremias 17:9).
Portanto, “nascer assim” — seja “assim” orgulhoso, iracundo, mentiroso ou cobiçoso — é a descrição bíblica exata da nossa condição natural. O problema não está na primeira parte da frase (“eu nasci assim”), mas na conclusão orgulhosa que a acompanha: “…e não vou mudar.”
2. A Negação do Evangelho: Graça Irresistível e Regeneração
Para a fé Reformada, a salvação não é um mero “perdão” que nos deixa como estávamos. A salvação é uma regeneração (novo nascimento). É a obra soberana e monergista (feita somente por Deus) do Espírito Santo, que cumpre a promessa de Ezequiel 36:26:
“Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne.”
Quando um cristão professo diz “eu não vou mudar”, ele está, na prática, declarando uma destas duas coisas: ou que o Espírito Santo é fraco demais para mudar seu “jeito”, ou que a obra de Cristo na cruz foi insuficiente.
A Graça Irresistível (o “I” do TULIP) não significa que Deus nos arrasta para o céu contra nossa vontade. Significa que o Espírito Santo opera em nós de forma tão eficaz que Ele muda a nossa vontade. Ele quebra o nosso coração de pedra e nossa rebelião, e nos dá um novo coração que deseja agradar a Deus.
A pessoa que diz “esse é o meu jeito” e se recusa a lutar contra o pecado está dando evidências de que seu coração de pedra talvez nunca tenha sido removido.
3. Corrigindo os Ditos Populares à Luz da Santificação
A vida cristã, segundo a doutrina Reformada, é composta de duas fases: Justificação (um ato instantâneo em que somos declarados justos por meio da fé em Cristo) e Santificação (um processo vitalício em que somos feitos progressivamente mais santos).
O crente não alcança a perfeição sem pecado nesta vida (como Romanos 7 deixa claro). No entanto, a marca de um verdadeiro crente (um eleito) não é a ausência de pecado, mas a luta contra ele.
Vamos corrigir os ditos populares:
Dito Popular: “Eu nasci assim e não vou mudar.”
Correção Bíblica: “Eu nasci em pecado (Depravação Total), mas, pela Graça Irresistível de Deus, eu nasci de novo (Regeneração) e, portanto, estou sendo mudado (Santificação) à imagem de Cristo, goste minha velha natureza disso ou não.”
Dito Popular: “Esse é o meu jeito e pronto.”
Correção Bíblica: “O ‘meu velho jeito’ foi crucificado com Cristo (Gálatas 2:20). O ‘meu novo jeito’ é a busca incessante por conformidade com Cristo, ainda que eu falhe diariamente.”
Dito Popular: “Deus me ama como eu sou.”
Correção Bíblica: “Deus me amou apesar de como eu era (Romanos 5:8), mas Ele me ama demais para me deixar como eu sou. Seu amor não é uma permissão para o pecado, é o poder para vencê-lo.”
| Dito popular | Correção à luz da fé cristã reformada | |
| “Deus me aceita do jeito que eu sou.” | Deus me recebe pela graça, mas não me deixa do jeito que sou. | |
| “Ninguém é perfeito.” | Verdade, mas Deus exige que busquemos a santidade (1Pe 1:16). | |
| “Melhor ser sincero do que ser falso.” | Ser sincero não é licença para ser grosso; a verdade deve ser falada em amor (Ef 4:15). | |
| “Deus conhece meu coração.” | Justamente por conhecer, Ele chama ao arrependimento (Jr 17:9-10). | |
| “Tenho gênio forte mesmo.” | O fruto do Espírito é domínio próprio (Gl 5:23). |
4. Perseverança dos Santos: A Luta é a Evidência
A doutrina da Perseverança dos Santos (o “P” do TULIP) é frequentemente mal compreendida como “uma vez salvo, salvo para sempre, não importa o que eu faça”. Isso não é Calvinismo; é antinomianismo (contra a lei).
A doutrina correta ensina que aqueles a quem Deus salvou, Ele também preservará. E como Ele os preserva? Preservando-os do pecado, preservando-os na fé e preservando-os na santidade. Aquele que verdadeiramente nasceu de novo irá perseverar na fé e na luta contra o pecado.
O autor de Hebreus é claro: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14).
A pessoa que se sente confortável em seu pecado, que usa o “meu jeito” como um escudo para proteger seu ídolo, não está demonstrando a perseverança dos santos. Pelo contrário, está dando motivos sérios para questionar a veracidade de sua conversão inicial (2 Coríntios 13:5).
Conclusão: Uma Fé que Não Muda Não é Fé
Na teologia Reformada, a fé salvadora (a fides vera) nunca está sozinha; ela é sempre acompanhada por frutos, sendo o principal deles o arrependimento e a santificação.
Usar a desculpa do “eu sempre fui assim” é, em essência, dizer a Cristo: “Sua cruz foi suficiente para me salvar do inferno, mas não é suficiente para me salvar de mim mesmo.”
A fé bíblica não apenas nos salva do pecado (sua culpa), mas também nos salva para a santidade (seu poder). Se o “seu jeito” permanece intocado, soberano e inquestionável, é provável que o seu “eu” ainda esteja no trono que pertence unicamente a Cristo.
