O chamado Princípio da Maior Felicidade, proposto por John Stuart Mill, afirma que uma ação é moralmente correta quando promove “a maior felicidade para o maior número de pessoas”. Essa ideia, base do utilitarismo, busca definir o bem a partir das consequências e do prazer resultante das ações humanas. No entanto, à luz da teologia reformada, tal princípio se mostra profundamente incompatível com a ética cristã revelada nas Escrituras.
Em primeiro lugar, o utilitarismo parte de uma visão antropocêntrica — ou seja, coloca o homem, sua felicidade e seu bem-estar como o centro do valor moral. A teologia reformada, porém, afirma que toda a criação existe para a glória de Deus (Romanos 11:36; 1 Coríntios 10:31). O bem não é determinado pelo que gera prazer ou utilidade humana, mas pelo que conforma-se à vontade santa de Deus, revelada na Sua Palavra. Assim, uma ação não é justa porque traz felicidade, mas porque agrada a Deus e está de acordo com Sua lei moral.
Além disso, o princípio da maior felicidade relativiza o bem e o mal, tornando-os dependentes das circunstâncias e das percepções humanas. O que “a maioria” considera benéfico passa a ser o critério moral, abrindo espaço para justificar injustiças e pecados em nome do “bem coletivo”. Todavia, a ética reformada reconhece que Deus é a fonte objetiva e imutável da moralidade: “O Senhor é justo em todos os seus caminhos e benigno em todas as suas obras” (Salmo 145:17). O padrão de bem não muda com o tempo, nem com a opinião pública; é fixado pela Lei de Deus, que reflete Seu caráter perfeito.
Por fim, o utilitarismo ignora a realidade do pecado original, ao supor que o homem é capaz de calcular racionalmente o que trará maior felicidade coletiva. A Escritura, porém, ensina que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas” (Jeremias 17:9), e que sem a regeneração operada pelo Espírito Santo o ser humano não pode discernir o verdadeiro bem (1 Coríntios 2:14). Somente pela graça é possível agir moralmente, e não por meio de cálculos humanos de prazer e dor.
Portanto, o Princípio da Maior Felicidade não se sustenta diante da ética bíblica reformada. Ele desloca o centro da moralidade de Deus para o homem, substitui a santidade pela conveniência e transforma a obediência em mero instrumento de utilidade social. O cristão reformado sabe que o fim último de todas as coisas não é a felicidade humana, mas a glória de Deus (Soli Deo Gloria) — e que a verdadeira bem-aventurança só é encontrada na comunhão com Cristo, e não no prazer transitório deste mundo.
