O orgulho de quem acredita amar mais do que o próprio Criador
Existe uma forma de orgulho que raramente é reconhecida como tal, porque se apresenta vestida de compaixão, justiça e amor ao próximo. Não se manifesta necessariamente por meio da arrogância explícita, da violência ou do desprezo pelos outros. Pelo contrário, pode surgir no coração de pessoas que se consideram profundamente sensíveis ao sofrimento humano, indignadas com a maldade do mundo e desejosas de que todos sejam salvos. O problema começa quando essa compaixão deixa de reconhecer os limites da criatura e passa a questionar, ainda que silenciosamente, a sabedoria, a justiça e a soberania do próprio Deus.
Há pessoas que, ao contemplarem a perdição eterna, pensam consigo mesmas: “Se eu tivesse o poder de Deus, salvaria todos. Não permitiria que nenhum ser humano se perdesse. Salvaria todos os meus parentes, todos os filhos, todos os maridos e todas as esposas. Se alguém fosse verdadeiramente bom como eu, jamais permitiria que alguém sofresse dessa maneira”.
À primeira vista, tais pensamentos parecem revelar apenas um coração compassivo. Entretanto, quando examinados à luz das Escrituras, podem revelar algo muito mais profundo: a presunção de que o julgamento humano seria superior ao julgamento divino, de que o amor humano seria mais justo do que o amor de Deus e de que a criatura, se ocupasse o lugar do Criador, governaria o universo de maneira melhor do que Ele.
O ser humano, então, deixa de se enxergar como uma criatura dependente da graça e começa a imaginar-se como alguém capaz de corrigir aquilo que Deus, em sua soberania, determinou ou permitiu.
Esse é o perigo de um coração que, sob a aparência de bondade, começa a colocar a si mesmo no lugar de Deus.
1. A ilusão de uma bondade superior à de Deus
A Escritura declara em Romanos 3:10-12:
“Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”.
Essa declaração confronta diretamente a confiança que o homem deposita na própria bondade. O apóstolo Paulo não está dizendo que todas as pessoas praticam exatamente os mesmos atos de maldade ou que os seres humanos sejam incapazes de demonstrar afeição, misericórdia ou solidariedade. A Bíblia reconhece que existem diferenças reais entre as condutas humanas e que a bondade civil pode beneficiar a sociedade.
O que Paulo ensina é que nenhum ser humano possui justiça perfeita diante de Deus. Todos estão debaixo do pecado e necessitam da graça divina. Nenhuma pessoa pode apresentar a própria moralidade como fundamento para reivindicar superioridade sobre o Criador.
O problema, portanto, não está em desejar que o sofrimento termine, que a injustiça seja combatida ou que as pessoas sejam salvas. Essas coisas podem expressar preocupações legítimas. O problema está em transformar esses desejos em uma medida pela qual o próprio Deus passa a ser julgado.
Quando alguém pensa que, se tivesse o poder divino, governaria o mundo de maneira superior, precisa perguntar a si mesmo: de onde vem essa confiança na própria capacidade de julgar perfeitamente? Essa pessoa conhece todos os fatos, todas as intenções, todas as consequências futuras e todos os propósitos envolvidos em cada acontecimento?
Nós enxergamos apenas uma parte da realidade. Deus conhece todas as coisas. Nós julgamos segundo o que conseguimos compreender; Deus julga com perfeita justiça e conhecimento absoluto.
Por isso, a Escritura nos adverte em Romanos 11:33:
“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!”
A verdadeira humildade não consiste em fingir que não sentimos compaixão, mas em reconhecer que nossa compreensão é limitada e que não temos autoridade para nos sentar no tribunal de Deus.
2. Quando a compaixão humana se transforma em acusação contra Deus
Imagine alguém que observa uma família na qual um dos cônjuges professa a fé cristã, mas o outro permanece incrédulo. Essa pessoa pode pensar: “Se eu fosse Deus, salvaria também o marido ou a esposa. Não permitiria que alguém se perdesse tendo um cônjuge crente. Afinal, se essa pessoa ama seu marido ou sua esposa, por que não garantiria a salvação de toda a família?”.
Esse raciocínio parece nascer do amor familiar, mas contém uma suposição que precisa ser examinada: a de que o vínculo afetivo com um cristão deveria, por si só, garantir a salvação de outra pessoa.
A Escritura, porém, ensina que a salvação não é transmitida por parentesco, casamento ou proximidade com alguém que crê. Cada pessoa necessita da graça de Deus.
Em Ezequiel 18:20, lemos que a responsabilidade moral não é transferida simplesmente de uma pessoa para outra. E, em João 1:12-13, a Bíblia ensina que os filhos de Deus nascem de Deus, não meramente de vínculos ou vontades humanas.
Isso não significa que devamos deixar de orar pela conversão de nossos familiares. Pelo contrário, devemos interceder por eles, anunciar o evangelho, demonstrar amor e desejar sinceramente que conheçam a Cristo. A promessa de Atos 16:31, por exemplo, está inserida em um contexto de proclamação do evangelho e não deve ser interpretada como uma garantia automática de salvação para todos os parentes de um crente.
O erro está em concluir que, porque nós amaríamos alguém a ponto de desejar sua salvação, Deus seria injusto se não agisse segundo a nossa expectativa.
Em vez de reconhecer que não compreendemos plenamente os caminhos divinos, passamos a usar nossos sentimentos como tribunal sobre a vontade de Deus. Já não perguntamos humildemente o que as Escrituras revelam sobre a salvação; começamos a determinar o que Deus deveria fazer para corresponder àquilo que consideramos aceitável.
É possível desejar intensamente a salvação de alguém sem presumir que conhecemos todos os propósitos de Deus. É possível chorar por nossos familiares sem transformar nossas lágrimas em acusação contra o Criador.
A compaixão bíblica nos leva à oração e à proclamação do evangelho. A presunção, por outro lado, leva-nos a imaginar que nossa vontade seria um padrão mais elevado de justiça.
3. O pensamento de que, se todos fossem como nós, o mundo seria melhor
Outro sinal dessa ilusão aparece quando alguém pensa que, se todas as pessoas fossem semelhantes a ela, o mundo seria maravilhoso.
Talvez essa pessoa se considere honesta, generosa, justa e incapaz de praticar certas maldades que observa nos outros. Ao contemplar a corrupção, a violência, a crueldade e a injustiça, conclui que o problema do mundo está sempre nos demais. Em seu íntimo, acredita que, se todos adotassem seus valores, suas opiniões e sua maneira de agir, a sociedade finalmente encontraria a paz.
Mas essa conclusão ignora a profundidade do pecado humano.
Jeremias 17:9 declara: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?”.
O coração humano não é um juiz infalível de si mesmo. Podemos reconhecer facilmente os pecados dos outros enquanto minimizamos os nossos. Condenamos a arrogância alheia sem perceber a nossa própria soberba. Reprovamos a intolerância de alguém enquanto nos recusamos a admitir que também somos impacientes, orgulhosos e injustos.
O pecado não se manifesta apenas em atos escandalosos. Ele também pode aparecer em pensamentos respeitáveis, intenções aparentemente nobres e sentimentos que parecem moralmente superiores.
Uma pessoa pode desejar combater toda a maldade e, ao mesmo tempo, alimentar orgulho por se considerar mais justa do que os demais. Pode desejar a felicidade de toda a humanidade e, ainda assim, não reconhecer sua própria necessidade de arrependimento.
É por isso que Jesus nos adverte em Mateus 7:3-5 a examinar primeiro a trave em nosso próprio olho antes de tentar retirar o cisco do olho do nosso irmão.
A passagem não proíbe o discernimento moral nem a correção fraterna. Ela condena a hipocrisia de quem deseja corrigir os outros sem reconhecer a própria condição.
A sociedade certamente seria beneficiada se houvesse mais honestidade, misericórdia e justiça. Contudo, não seria redimida simplesmente porque todos se tornassem semelhantes a nós. Se todos compartilhassem também os nossos pecados, nossas limitações, nossos preconceitos e nossos pontos cegos, os problemas humanos continuariam presentes.
A esperança cristã não está na transformação de toda a humanidade segundo o nosso próprio modelo, mas na obra de Deus, que transforma pecadores pela graça de Cristo.
4. O pecado do orgulho escondido atrás de boas intenções
O orgulho nem sempre diz: “Sou melhor do que todos”. Às vezes, ele diz: “Eu jamais permitiria que isso acontecesse”.
Essa afirmação pode parecer uma expressão de sensibilidade, mas também pode revelar uma confiança exagerada na própria capacidade de julgar situações que ultrapassam a compreensão humana.
Quando alguém afirma que, se governasse o universo, acabaria com toda a maldade, precisa considerar que não conhece todas as consequências de cada decisão. Não possui sabedoria perfeita, não conhece integralmente o futuro e não pode discernir todos os propósitos envolvidos na história.
Isso não significa que devamos aceitar passivamente a injustiça ou deixar de combater o mal. A Bíblia ordena que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com Deus, conforme Miqueias 6:8. O cristão deve proteger o vulnerável, socorrer o necessitado, denunciar a opressão e buscar o bem do próximo.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre combater o mal dentro da vocação que Deus nos concedeu e presumir que poderíamos administrar perfeitamente toda a realidade se ocupássemos o lugar dele.
O primeiro caminho expressa obediência. O segundo pode expressar soberba.
O ser humano não foi chamado para ser o salvador do mundo. Foi chamado para amar o próximo, obedecer à Palavra e anunciar a salvação que somente Deus pode conceder.
O próprio Cristo, sendo o único sem pecado, não nos ensinou a confiar em nossa superioridade moral. Ele nos ensinou a reconhecer nossa dependência de Deus. Em Lucas 18:9-14, na parábola do fariseu e do publicano, Jesus contrasta o homem que confia em sua própria justiça com aquele que clama por misericórdia.
O fariseu enumerava suas virtudes; o publicano reconhecia sua culpa. E foi o publicano, que suplicou misericórdia, quem desceu justificado para casa.
A lição é profunda: o maior obstáculo espiritual não é apenas a prática de pecados que todos conseguem enxergar, mas também a confiança na própria justiça que nos impede de reconhecer nossa necessidade da graça.
5. Deus não precisa da nossa autorização para ser justo
No centro dessa questão está a soberania de Deus.
Romanos 9:20 apresenta uma pergunta que confronta a pretensão humana: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?”.
Paulo não está proibindo perguntas sinceras, o estudo das Escrituras ou o lamento diante do sofrimento. A própria Bíblia contém orações de angústia, perguntas difíceis e clamores por justiça. Os salmos demonstram que podemos apresentar nossas dores diante do Senhor.
O que a Escritura confronta é a atitude de quem transforma sua própria avaliação em autoridade final sobre Deus.
Deus não é obrigado a justificar todos os seus caminhos segundo os critérios limitados de suas criaturas. Sua justiça não depende da aprovação humana, e sua santidade não precisa ser validada por nossos sentimentos.
A salvação pertence ao Senhor. Efésios 2:8-9 ensina que somos salvos pela graça, mediante a fé, e que isso não vem de nós, para que ninguém se glorie.
Se a salvação fosse uma recompensa concedida por nossa bondade, nossa compaixão ou nossos méritos, teríamos motivo para nos vangloriar. Mas a graça elimina essa pretensão. Ela nos lembra que não fomos salvos porque éramos moralmente superiores, mas porque Deus é misericordioso.
Também não devemos confundir a soberania divina com indiferença humana. Deus ordena que anunciemos o evangelho a todas as pessoas, que oremos pelos que ainda não creem e que amemos até mesmo nossos inimigos. A responsabilidade de proclamar a verdade não depende de conhecermos antecipadamente o decreto divino.
Nosso dever é obedecer ao que Deus revelou, deixando a Ele aquilo que não nos foi revelado.
Não precisamos compreender todos os mistérios da providência para reconhecer que o Senhor é sábio, santo e justo.
6. Se desejamos salvar todos, precisamos reconhecer quem é o Salvador
É legítimo desejar que nossos filhos, cônjuges, pais, irmãos e amigos conheçam a Cristo. É legítimo desejar que a violência cesse, que a injustiça seja vencida e que a humanidade encontre paz. O problema não está em desejar o bem, mas em imaginar que nossos desejos nos tornam moralmente superiores ao próprio Deus.
A pergunta que precisamos fazer não é apenas: “Por que Deus não faz tudo conforme eu considero melhor?”. Precisamos também perguntar: “Quem sou eu diante daquele que me criou? Conheço a profundidade do meu próprio pecado? Reconheço a minha dependência da graça?”.
A Bíblia não nos ensina que devemos sufocar toda compaixão, mas que devemos submetê-la à verdade. Não nos ensina a abandonar a oração pelos perdidos, mas a orar com humildade. Não nos ensina a ignorar a maldade, mas a combatê-la sem imaginar que somos moralmente puros.
Cristo não veio para confirmar a ilusão de que somos bons o suficiente para salvar o mundo. Ele veio para salvar pecadores.
Em 1 Timóteo 1:15, Paulo declara que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores e acrescenta que ele próprio era o principal deles. A consciência da graça não produziu nele desprezo pelos demais, mas humildade diante de Deus e dedicação à proclamação do evangelho.
Esse é o caminho que devemos seguir.
Em vez de imaginar que salvaríamos o mundo se tivéssemos o poder divino, devemos reconhecer que nós mesmos necessitamos desesperadamente da salvação que somente Deus pode conceder. Em vez de confiar em nossa bondade, devemos nos arrepender de nossos pecados. Em vez de exigir que Deus se conforme aos nossos critérios, devemos procurar compreender e obedecer àquilo que Ele revelou nas Escrituras.
Não somos o padrão da justiça. Não somos a fonte da bondade. Não somos os salvadores da humanidade.
Somos criaturas dependentes do Criador, pecadores necessitados de misericórdia e servos chamados a amar o próximo segundo a vontade de Deus.
Conclusão: a verdadeira humildade começa quando deixamos de nos colocar no trono
Existe uma diferença entre amar o próximo e imaginar que amamos melhor do que Deus. Existe uma diferença entre desejar a salvação dos pecadores e presumir que sabemos como o Senhor deveria salvar. Existe uma diferença entre combater a maldade e acreditar que nossa própria bondade seria suficiente para corrigir o mundo.
Quando alguém pensa que, se estivesse no lugar de Deus, salvaria todas as pessoas, preservaria todos os familiares de cada cristão e eliminaria toda a maldade, precisa examinar cuidadosamente o próprio coração. Afirmar que faria um julgamento melhor do que o do Criador, como se a própria compreensão da justiça fosse superior à sabedoria divina, revela arrogância e orgulho. Nesse momento, a criatura deixa de reconhecer humildemente sua posição diante de Deus e assume, em seu próprio pensamento, o papel de um pequeno deus, como se tivesse autoridade, sabedoria e justiça suficientes para determinar o que o Senhor deveria fazer. A compaixão pelas pessoas não é, por si só, condenável; o problema está em transformar os próprios sentimentos em medida absoluta da justiça, colocando o julgamento humano acima do juízo divino. As Escrituras nos ensinam que Deus não está sujeito aos nossos critérios, pois é o Criador, o Juiz justo e aquele cuja sabedoria é infinitamente superior à nossa (Romanos 11:33-34; Isaías 55:8-9).
O verdadeiro amor não exige que Deus se submeta à nossa vontade. A verdadeira humildade não presume que governaríamos o universo melhor do que Ele. E a verdadeira fé não transforma nossos sentimentos em medida da justiça divina.
Precisamos lembrar que o mesmo Deus cuja soberania muitas vezes questionamos é aquele de quem dependemos para cada respiração, aquele diante de quem responderemos por nossas ações e aquele cuja graça nos é indispensável.
Se desejamos um mundo sem maldade, comecemos reconhecendo a maldade que ainda precisa ser mortificada em nosso próprio coração. Se desejamos que os outros sejam salvos, oremos por eles e anunciemos Cristo. Se desejamos justiça, pratiquemos a justiça sem abandonar a humildade. E, se nos sentimos tentados a pensar que seríamos deuses melhores do que o verdadeiro Deus, voltemos às Escrituras e recordemos quem somos.
O homem não foi criado para ocupar o trono do Criador. Foi criado para glorificá-lo.
A resposta para o pecado humano não é a exaltação da bondade humana, mas a graça de Deus em Jesus Cristo. Nossa esperança não está em sermos tão bons que possamos salvar a todos, mas em reconhecer que somente o Senhor é perfeitamente justo, perfeitamente sábio e poderoso para salvar.
“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11:36).
